domingo, 31 de julho de 2011

Náufrago : Um estressado no paraíso ?


Você já assistiu o filme "Náufrago", com Tom Hanks? Eu já, quatro vezes. Se você conhece a história, há de lembrar que Chuck, o personagem vivido por Tom, é uma espécie de supervisor do FedEx americano, similar ao nosso Sedex. Obcecado por tempo, relógio, celular e pager, ele diz insistentemente que "o tempo nos salva ou nos mata". Com esta filosofia, Chuck vai levando sua vida mediana, alternando-se entre o trabalho com constantes viagens e o romance com a doutoranda Kelly Fears, que apesar do jeitão de Chuck, ama o estressado. Chega a noite de Natal, e Chuck festeja a data com Kelly, a família dela e alguns amigos, quando chega uma mensagem em seu pager avisando-o que terá que viajar naquela noite mesmo. Eles trocam um olhar, e ela já sabe que ele vai de novo viajar, e pede que ele esteja lá no Reveillón. Diz ainda que tem um presente para entregar, e ele sugere que seja no carro, pois têm que ir para o aeroporto. Minutos antes de embarcar, ela dá a ele uma herança de família : um relógio de bolso, que pertencera ao seu avô, com uma foto dela. Ele adora o presente, e lhe retribui dando o que ?? Adivinhe ? Um pager e um diário ! ( risos )... e vai embora, prometendo voltar.

Ocorre que nós, seres humanos, não somos donos de nada, nem do tempo, nem da vida, nem do destino. O avião de Chuck cai no meio do oceano e só ele sobrevive. E vai parar numa ilha paradisíaca, mas deserta. Lá, entre o choque de estar na situação e o desejo de sair dela, ele vai dia após dia aprendendo a sobreviver, abrindo o coco, buscando a água, pescando o peixe e protegendo-se da tempestade. Ele aprende a fazer fogo, fogueira, corda. Três dias depois, resolve ir para o mar, munido do bote salva vidas e um minúsculo remo. É claro que não dá certo, e as ondas o derrubam. Pra completar fere a perna em um coral. Detalhe : lá não tem antibiótico nem antiinflamatório, muito menos curativo industrializado. Ele sofre muito ! O aprendizado é árduo, ele se fere, se machuca, se estressa. Como assim ? Um estressado numa ilha paradisíaca ? Penso que as pessoas muito apaixonadas não sabem o que dizem quando declaram : "Queria estar numa ilha deserta com você". Hã ? Como assim ? Pára o mundo que eu quero descer.

Uma ilha deserta é uma ilha deserta. Não tem as comodidades de um hotel, um resort, ou mesmo de uma cabana tropical. Não tem água potável, a não ser que o náufrago descubra um rio de água doce; não tem banheiro, não tem onde fazer number one nem number two. Não tem cama fofinha, não tem pijamas de algodão. Chuck que o diga. Ele quer ouvir o som da própria voz, para aplacar a solidão. Adota uma bola de vôlei trazida nos pacotes de FedEx trazidos pela maré, e a reveste de personalidade. É o Wilson. Quatro anos se passam, até que maré traz um pedaço do avião, que logo dá uma idéia ao náufrago : se com bote inflável não deu certo, com uma "vela" de metal, resistente, dará. E Chuck começa a realizar seu projeto, dia e noite : ELE QUER FUGIR PARA O MAR. Tá bom de ilha deserta. Até suicídio já passou pela sua cabeça... então resta arriscar. Melhor morrer tentando do que nunca sair da ilha, do paraíso. As ondas quebrando nas pedras, deslizando pela areia... o pôr-do-sol, o nascer do sol... isto não interessa mais pra ele.

Quando fica pronto, ele vai com "Wilson", fugir para o mar; e escreve na pedra ( na primeira imagem acima ) :

"Chuck Noland esteve aqui por 1500 dias, e resolveu fugir para o mar. Por favor, diga a Kelly Fears, de Memphis, que eu a amo".

Feito isso, ele joga a jangada no mar e vai, rema, luta pelo seu sonho. Ah, sim, agora ele já conhece o movimento das ondas, ele sabe como é a maré. Está mais preparado. E com esforço chega ao alto mar, consegue seu objetivo. Mas... vem a tempestade, leva para longe as velas, leva para mais longe ainda Wilson, a bola amiga. E Chuck se desespera. Agora sim, ele é a figura da solidão. Joga os remos fora, se entrega. Espera a morte por desidratação, ou quem sabe devorado por uma fera marinha, como a baleia que passa ao seu lado. Mas aí vem o golpe de misericórdia. Um navio o encontra. Ele diz só uma palavra, estendendo o braço em clemencia : "KELLY".

Em sua casa, Kelly atende o telefone, e em seguida reconhece a voz e desmaia : Chuck, o seu antigo noivo, por quem ela sofreu, está vivo ! Ele é recebido com festa, mas o que quer mesmo é encontra-la. Nos 4 anos na ilha, era dela a foto que ele olhava, esperançoso de encontra-la. Mas quem aparece no encontro é o marido de Kelly, dando um chega pra lá em Chuck. Com muita educação, é claro. Mas à noite Chuck pega um taxi e vai até a casa dela. Ele quer realmente ve-la. Aí ela o recebe, abraça, fala de tudo o que passou na ausencia dele... e ele diz que sabe que ela é casada, que tem uma filha... e devolve o relógio, sem a foto.Ele diz :

- Nunca deveria ter entrado naquele carro; nunca deveria ter pegado aquele avião.

Ela diz que o ama, que ele é o amor da vida dela. Ele também diz o mesmo. Mas ela tem que voltar pra casa, sua vida agora é outra. Tem marido e filha. Ele vai embora. E diz a um amigo :

- Eu agradeço a Kelly por ter ficado comigo naquela ilha. Era o desejo de reve-la que me fazia ficar vivo. Eu a perdi uma vez, e estou perdendo outra... mas sei que preciso continuar respirando. Amanhã o sol nasce de novo... quem sabe o que a maré poderá me trazer ?

E traz mesmo. Ele conhece outra garota, bem no fim do filme.

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