O conhecimento de causa é o primeiro pressuposto para falar de algo. Neste primeiro post, vou falar como conhecedora de causa do ciúme. Suponhamos que Mme. de Deshoulières está sentada ao meu lado, dizendo sua famosa frase afirmativa de que um pouco dele (do ciúme) desperta um amor feliz que aferrece. Ora, é uma boa frase para se pensar. Em amor. E mais do que isso, em amor feliz. Ou terei que concordar com outros filósofos ao pensar que o amor para ser feliz tem que ser um pouquinho infeliz? Aqueles 0,1 ou 10% (!!) que deixam a certeza absoluta transformar-se em relativa?
Coríntios 13 diz que o amor não é ciumento. Logo, se tenho ciúme, não amo. Rochefoucald disse que há nesse sentimento mais amor - próprio do que amor genuíno. Sthendal complementa afirmando que a agudeza com que se sente tal coisa ocorre porque nossa vaidade é abalada. Já Dostoiévsky acha que os ciumentos são os primeiros a perdoar. E Roland Barthes arremata : o ciumento sofre 4 vezes : por ser excluído, por ser agressivo, por ser doido e por ser vulgar. Qual é a verdade, então?
Seria uma ode do rei a canção "o meu ciúme"? Será que quando compôs tal coisa sua auto-estima e auto-imagem estavam arrastando ao chão? E Shakespeare, estava sofrendo de dor aguda nos cotovelos quando escreveu Othelo? Será que a responsabilidade por este sentimento, quando tem razão de ser - é de uma pessoa somente? Será que é do mais inseguro, do que fantasia, do que procura cabelos em cabeça de ovo, ou vê coisas onde não existe nada? Será que lá no fundo não existe algo - um olhar, um detalhe, uma desatenção, uma insistenciazinha em explicar o inexplicável - que justifique isso? Sim, porque nunca vi ninguém dizer que é feliz por sentir na boca aquele gosto amargo, os olhos ardendo, coração acelerando ou aquela insônia por mais cansado que esteja. Outra informação 'de campo' é : nada disso justifica atitudes extremas, como abrir bolsas, checar se a pessoa está onde estaria, seguir o carro do outro no meio de uma chuva torrencial. Isto é doença... e merece tratamento.
Mas o sentimento ao qual me refiro aqui é aquele em que você constata, não sem tristeza, que há subterfúgios e coisas não reveladas : um convite irresistível ao recolhimento gradual das suas atenções; à vontade de não mais estar com o outro, por não conseguir olhá-lo nos olhos sem sentir o peito apertar; à necessidade de se certificar do que você quer, antes de respirar fundo e prosseguir caminhando ao lado do seu "amor". Estou falando do ciúme sem escândalos, cenas, ou mesmo vozes alteradas ao telefone; da muda constatação de que há a necessidade de mudar de foco, e até tornar, quem sabe, aquele amor menos importante, e menos essencial.
O primeiro post de 2008 é o reflexo da minha alma hoje; sábado à tarde, 2 :40min. Poderia falar de qualquer outra coisa, mas resolvi deixar aqui no meu diário virtual. Quem já passou por isto sabe do que estou falando. Sabe que às vezes se esconde amores com medo de perdê-los, e às vezes os perdemos por escondê-los. Que seguramos nas mãos de alguém com medo, e que esse medo às vezes nos faz esquecer que ainda temos mãos. Que expulsamos pessoas de nossas vidas e depois nos arrependemos por isso. Que passamos noites chorando, e às vezes quase não dormimos, tal é a felicidade sentida. E que um dia acreditamos em amores perfeitos e descobrimos, como todos os que nasceram, morreram e aqueles que ainda vão nascer, que tais amores não existem. Que amamos pessoas que nos decepcionam e decepcionamos pessoas que nos amam. Que mentimos e nos arrependemos. Que falamos a verdade e também nos arrependemos.
QUAL SERÁ, ENTÃO, O MAIOR ARREPENDIMENTO ?
( Ivy - Primeiro post do diário de uma ciumenta com causa ).
Buenas Tardes.