A descrição mitológica é esta aqui : a fênix tinha penas brilhantes, douradas e vermelho arroxeadas. Era, pasmem, capaz de carregar pesadíssimas cargas, mesmo tendo um tamanho aproximado de uma águia. Vivia exatamente 500 anos; quase ao fim deste período, pressentindo a sua morte, ela construía uma pira de ramos de canela, sálvia e mirra, em cujas chamas morria queimada. Mas das cinzas renascia uma nova fênix, que de maneira minuciosa, cuidadosa, cautelosa, colocava os restos de sua progenitora em um ovo de mirra e voava bem alto até a cidade de Heliópolis, no Egito.
Tem gente que adora tatuar fênix no corpo. Do meu circulo de amigos, conheço pelo menos duas pessoas que fizeram tatoo de fenix. Sem dúvida, trata-se de um grande símbolo, denotando força, ausência do medo paralisador, que faz com que as pessoas estacionem em cima da pira, não permitindo reaprender e recomeçar, deixando as cinzas serem molhadas pela chuva - que sai lavando e levando tudo embora. Recomeçar, reiniciar, respirar fundo, tentar de novo. Como isso pode ser difícil, tratando-se desse complexo ente chamado SER HUMANO.
Com nossa alma conquistamos o nosso lugar : em nossa casa, em nosso casamento, em nosso trabalho, em nossa família, e principalmente, diante de nós mesmos. Esta alma precisa estar preparada para discernir entre o que é possível e o que só é imaginável. Deve estar convicta do momento de dizer : PAROU ! Deve estar certa das suas escolhas, e assumir os preços a pagar. De novo eles, os preços... muitas vezes altos, incoerentes, e até indesejados. Porém, quando sabemos que a vida é sequência, e que as coisas simplesmente vão acontecendo, e se não damos nome a elas, elas nos dominam, então resta que postura ? Laissez Faire, Laissez Passer ! "Deixai fazer, deixai passar".
Mas como ? O que é isso ? Deixar fazer, deixar passar o que ? Deixar passar o que é confuso. Mesmo que seja para aprendizado, já que antes de aprender, todo ser humano precisa ficar confuso ( Neurolinguística ). Deixar passar o que dá sinais de falência. Deixar também o medo de nossa própria companhia - pois não há ninguém que fique conosco tanto tempo quanto a gente mesmo. Deixar a postura de patroa, sempre submissa, sempre disponível, sempre boazinha. Abandonar a gueixa que espreita em alguma brecha inconsciente. Deixar fazer sol na varanda da alma. Deixar a chuva molhar o nosso rosto, porque não corremos quando ela começou a cair. Deixar-se caminhar na rua, olhando as pessoas, a vida em movimento. Deixar fazer sentido, todo o sentido do mundo, as escolhas que certamente definem, num lampejo ou em razão de uma vida inteira - o nosso futuro. Futuro incerto. Quem paga pra ver ??